"A ESCRAVIDÃO AQUI FOI MAIS PERVERSA"
Vovô, presidente do Ilê Ayê: "O sul vai mostrar a sua cara preta" |
Lena afirma que a ação do Ilê irá quebrar o imaginário construído de um suposto sul branco |
O babalorixá Diba de Iyemonjá, do Asé Iyemonja Omi Olodo, da Vila São José, em Porto Alegre, confirma que é comum uma reação de surpresa quando apresenta ações da comunidade afro do Rio Grande do Sul. "Não nos conformamos com essa invisibilidade. Isso é resultado do colonizador escravagista que fez um grande esforço para separar os negros, porém, hoje, estamos conseguindo sintonia, nos enxergando e tendo reconhecimento de nossas tradições." Para o religioso, a ação de um dos blocos mais tradicionais da Bahia vinculado ao terreiro IleAxeJitolu, de Mãe Hilda, é um motivo forte de comemoração "Pelo menos sabemos que o olhar do povo negro do Brasil estará voltado para os negros daqui", diz, enfatizando que os "irmãos" do sul são muito fortes "Nós somos o sumo da resistência, porque, historicamente, a escravidão aqui foi a mais perversa por conta das charqueadas, e o racismo muito maior, pois para cá vieram alemães, italianos e açorianos que receberam do governo glebas de terras para, à custa da exploração do nosso povo, investirem na agricultura e pecuária", afirma.
A religião de matriz africana foi muito perseguida pelos governos e pela polícia. Segundo o babalorixá, as autoridades mandavam invadir e fechar os terreiros, além de prender pais e mães de santo e seus adeptos. Mesmo assim, o Rio Grande do Sul é o Estado onde o povo mais se assume do Asé e que abriga o maior número de terreiros no Brasil. "Temos cidades, como Rio Grande, Pelotas, Santa Maria e Bagé, onde o povo negro marca presença, chegando a 80% da população, como no caso de Rio Grande e Pelotas. Nossa capital, Porto Alegre, segundo o censo do IBGE, tem 17% de negros. Um percentual que sempre questionamos, pois, ao visitar as vilas e morros das periferias, quase não se vê a presença de brancos", destaca o religioso.
Design Raimundo Santos, o Mundão, fotografou inúmeras referências da presença negra em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná |
CONSTRUINDO A NAÇÃO
Os negros do sul estiveram diretamente ligados na criação do Dia da Consciência Negra (20 de novembro). O coordenador-geral de educação para relações étnico- raciais do Ministério da Educação, Antonio Mário Ferreira lembra que a data foi escolhida em contraponto ao 13 de maio. A discussão partiu do coordenador do grupo Palmares de Porto Alegre, o poeta Oliveira Silveira, com o escritor e historiador Décio Freitas. "Havia um material com documentos que indicava que a data provável da morte de Zumbi teria sido em 20 de novembro de 1695.
Os negros do sul estiveram diretamente ligados na criação do Dia da Consciência Negra (20 de novembro). O coordenador-geral de educação para relações étnico- raciais do Ministério da Educação, Antonio Mário Ferreira lembra que a data foi escolhida em contraponto ao 13 de maio. A discussão partiu do coordenador do grupo Palmares de Porto Alegre, o poeta Oliveira Silveira, com o escritor e historiador Décio Freitas. "Havia um material com documentos que indicava que a data provável da morte de Zumbi teria sido em 20 de novembro de 1695.
Os bandeirantes levaram o corpo de Zumbi esquartejado para a atual Recife. Foi então que o Movimento Negro Unifi cado (MNU) do Rio Grande do Sul apresentou ao MNU Nacional a proposta, que foi aceita." Outra contribuição relevante é a literatura, com o próprio escritor Oliveira Silveira, que mostrou o negro gaúcho do interior, trabalhador nas charqueadas que cuidava de gado. "É a descrição do negro transformador, que luta e trabalha gerando crescimento na economia do Estado. Não é a demonstração derrotista de um negro que sofre e chora", analisa Ferreira.
Na música, a arte de Bedel e Luiz Wagner são destaques. Esses artistas que contribuíram na criação do samba rock, estilo que infl uenciou músicos como Jorge Ben Jor. Ferreira cita, ainda, Lupicínio Rodrigues, um dos maiores compositores da música popular brasileira, interpretado por vários artistas, entre eles, Jamelão.
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